21/12/2025
Concordo muito contexto
Eu parei na rua, li a placa e achei que fosse pegadinha. “Vende-se — R$ 120.000”. Olhei de novo. Pisquei. Respirei fundo. Não, não era erro de digitação. Era isso mesmo: um terreno de 4 x 18, espremido entre duas casas, mato alto, fio passando por cima, e o dono jurando que aquilo vale cento e vinte mil reais.
Naquele momento eu entendi: o brasileiro médio não vende mais imóvel, vende esperança. Esperança de que alguém chegue, olhe praquele corredor disfarçado de terreno e pense: “uau, aqui vou construir meu sonho”. Sonho de quê? De uma kitnet em formato de tubo? De uma casa onde você abre os braços e toca as duas paredes ao mesmo tempo?
Eu fico imaginando a conversa.
— “Mas por que 120 mil?”
— “Porque é investimento.”
Investimento em quê? Em claustrofobia premium? Em sombra garantida o dia inteiro? Em ventilação cruzada imaginária?
E o mais incrível é que sempre aparece alguém pra defender. O papagaio imobiliário surge rapidinho: “é localização”, “é valorização”, “é o metro quadrado”. Claro, o metro quadrado… porque quando você divide 120 mil por 72 m², o absurdo vira planilha e parece inteligente.
A verdade é simples e ninguém quer dizer em voz alta: o mercado enlouqueceu. Todo mundo quer ficar rico sem produzir nada. Comprou barato anos atrás, agora acha que virou sheik do concreto. Não importa se o terreno não cabe uma garagem, não importa se mal entra luz — importa que “alguém paga”.
E talvez pague mesmo. Porque tem sempre um desavisado, um iludido, ou alguém tão pressionado que aceita qualquer coisa com escritura. E é assim que o ciclo continua: quem pede demais valida o próximo a pedir ainda mais.
Eu olho pra essa placa e penso: não é só sobre um terreno de 4 x 18. É sobre a mentalidade de achar normal cobrar preço de ouro por espaço de aperto. É sobre chamar escassez de oportunidade e ganância de visão.
No fim, não me surpreende o valor.
Me surpreende é alguém ainda achar estranho.
Porque no Brasil de hoje, o absurdo já virou referência — e quem questiona ainda sai como o errado.